21 março 2007

(Nesse preciso tempo, nesse preciso lugar)

No princípio era o Verbo e os açúcares e os aminoácidos. Depois foi o que se sabe... Agora estou debruçado na varanda de um terceiro andar. E todo o passado vem exactamente desaguar. Nesse preciso tempo, nesse preciso lugar, no meu preciso modo e no meu preciso estado!
Todavia em vez de metafísica ou de biologia dá-me para a mais inespecífica forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica nem por isso provavelmente poesia... Pois que faria eu com tanto passado, senão passar-lhe ao lado, deitando-lhe o enviesado olhar da ironia?
Por onde vens, Passado, pelo vivido ou pelo sonhado? Que parte de ti me pretence, a que se lembra ou a que se esquece? Lá embaixo, na rua, passa para sempre gente indefinitivamente presente, entrando na minha vida, por uma porta de saída que dá já para a memória. Também eu [isto] não tenho história se não a de uma ausência entre indiferença e indiferença...

Manuel Antônio Pina

Nenhum comentário: