05 agosto 2007

VOLÚPIA IMORTAL

Cuidas que o genesíaco prazer,
Fome do átomo e eurítmico transporte
De todas as moléculas, aborte
Na hora em que a nossa carne apodrecer?!
Não! Essa luz radial, em que arde o Ser,
Para a perpetuação da Espécie forte,
Tragicamente, ainda depois da morte,
Dentro dos ossos, continua a arder!
Surdos destarte a apóstrofes e brados,
Os nossos esqueletos descarnados,
Em convulsivas contorções sensuais
Haurindo o gás sulfídrico das covas,
Com essa volúpia das ossadas novas
Hão de ainda se apertar cada vez mais!

O POETA DO HEDIONDO

Sofro aceleradíssimas pancadas
No coração. Ataca-me a existência
A mortificadora coalescência
Das desgraças humanas congregadas!

Em alucinatórias cavalgadas,
Eu sinto, então, sondando-me a consciência
A ultra-inquisitorial clarividência
De todas as neuronas acordadas!

Quanto me dói no cérebro esta sonda!
Ah Certamente eu sou a mais hedionda
Generalização do Desconforto...

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!


Augusto dos Anjos

03 agosto 2007

Vampiro [ Baudelaire ]

"Tu que, como uma punhalada
Invadiste meu coração triste,
Tu que, forte como manada
De demônios, louco surgiste,

Para no espírito humilhado
Encontrar luto e o ascendente
--Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à concorrente,

Como o seu jogo o jogador
como à garrafa o beberrão,
como os seus vermes a podridão,
--malditas seja, como for!

Implorei ao punhal veloz
Dar-me liberdade, um dia,
Disse após o veneno atroz
Que me amparaçe a covardia

Mas não! O veneno e o punhal
Disseram-me de ar zombeteiro:
Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro.

Ah! imbecil -- de teu retiro
Se te livrássemos um dia,
teu beijo ressucitaria
O cadáver do teu vampiro!"