19 maio 2007

[Transição]

André Díspore Cancian

Mais que ansioso de estar só
Ansioso de pensar-me só
E ter a escolha
Quando nada me coage
[a nada
E nada indica suspeita
[nenhuma
Coisa me traria mais conforto
Que fechar os olhos secos
Como se por eles houvesse
Passado um tiro
(de qualquer narcótico)

Ando os cômodos perturbado
Mas nada –––––––––––––––
Além de pedra, assento e desalento
Que por aqui, por hora, passa
Mas só por este momento sifilítico
Chamado vida

De ir e de voltar e de repensar
e de refazer e desmanchar este gueto
Sei cada poeira, todo o podre
O sei de cor, enfastiado disso
Espio e janela e adivinho a fuga
À rua à procura do novo
Mas rechaço esta novidade
[de oco
Este cenário erigido ao pão e circo
Isso fede mais ao pensamento
Que sua gente feliz e contente
Em ser demente que consente
E acreditar que seus filhos
– eles sim –
Serão diferentes, bem à frente
Da história tempo que o desmente

Sou ranzinza como um velho
Tivesse minha mente a idade que pensa
Estaria satisfeita e decomposta
Enquanto é sustada por este monte de
[]

Sei bem o que apodrece meus sonhos
E meus pensamentos e minhas
[explicações]
[explicações]
[explicações]
||||====|[soluções e||||||||]|==-------
[mais explicações e]
[mais soluções]
Intravenosas
Para fatos abstratos
Descritos muito melhor
Por qualquer bula de remédio

[Transição]

[Simulação de uma descrição
de uma transição de estado mental
[post-factum

Vejo o vácuo ver-se vivo e admito – não entendo
Por que há vácuo vivo, e ainda pensa?
Que se danem as mentiras de arte
Poetar não é só dizer mentiras bonitas
Um erro de memória explicaria
[melhor
Porque...
[[ Inutilia truncat ]]]

[estabilização]
[retorno]

Etc., deste modo e portanto
Quem se interessa, viva este perjúrio
Esta anemia e esta falta deste sabor
De contradição, e o guarde consigo
Satisfeito em ter-se tornado mais infeliz

[Agora está tudo bem]

Eu consigo ser medíocre
Sem levantar protestos
À existência ter-me nela
Sem qualquer importância

Me sinto vivo – sem esquecer uma vírgula
Do pesadelo que então me abandona
– Agora desprezo esses meus versos
Com a certeza de que retornarei
A eles como um tesouro
Quando sentir-me
Novamente
Morto

André Díspore Cancian

[Nihil]

André Díspore Cacian

Existir dói por convenção
Na irrazão de que a vida reviva
Sempre mais, mas para nada
Sentenciado à esperança perpétua
Que rasga-se pelo caminho do vácuo
Até a vertigem de alcançar a meta
Com passos além da exaustão
Ofegante na sina de quem foge
Do desatino de quem nasce
Onde todo triunfo transfoge e dói

Todo o nada do passado
Despeja vazio no presente
Despeja todo o presente
No porvir deste momento
Todo passado pesa agora
E quem pensa-se passado
Pressente inda mais amargor

Bipartido em meus pensamentos
E sonhando-me livre em querer
Escolher, retroagir, agir e fitar
Mas contido no nada do imedito
Vivendo num fato sem escolha

Daqui invejo quem desiste
[e insiste
Em emudecer com algo por dizer
Em permanecer e estar
Disposto a agir sem pensar
E esquecer que sonha
O sonho de desaparecer
A cada segundo menos vivo
[mais ninguém
Nem feliz ou triste, nada convém
Nem esperar a sorte
Nem esperar a morte
Nem sangrar de saber
Nem sofrer para esquecer

A morte não será o fim
Viver nunca foi um início
Somente a sensação triste
De dar por si com um rosto
E a ilusão de que sou algo
[mais que um fato
Com necessidade de viver
E a necessidade de quem vive

13 maio 2007

Cóclea

Ouço vozes que se perdem...
Pelo espaço suspenso..
Que envolve esse meu corpo
Indigente...
Os emissores se despedem
Sobre eles eu não penso!
Aprendi a ignorar essa sujeira...
que vaga à procurar um ouvinte retumbante
Mas meus sentidos se defendem
Dessa gente poluente
Dessa fala
dissonante!




(gabí)

07 maio 2007

Vidas Terráqueas

Corpos vivos
Estendidos nesse coxim...
E um silêncio destemido
salientando a respiraçao
E o decorrer daquela mão...
à um devido fim
A fricção desse movimento lauto faz de mim
um órgão flamejante
e um raciocínio ja esquecido nesse corpo umedecido
À essa volúpia uma continuação...
exorbitante felação...
usando a boca
e a imaginação
provocando um gozo
e uma adoraçao...





(gabí)

05 maio 2007

Cara amiga consciência...

"Após tantos desencontros, resolvi lhe escrever para pedir um favor. Nossas relações estão estremecidas, pois ultimamente você tem me causado vários problemas.

Encrustado no seu peito, sofro os abalos do seu desequilíbrio emocional. O efeito disso são as potentes descargas que me fazem bater descompassadamente. Você se desequilibra e sou eu quem acaba pagando o pato. E o pior é que você nem nota que está me ferindo!

Você já parou para pensar como eu sou importante? Provavelmente não. Em contrapartida, eu, que não paro um segundo, senão seu corpo morre, penso freqüentemente em você. Aliás, nem tenho como não pensar: você me arranja problemas a todo instante! Mesmo que eu não queira, sou obrigado a prestar atenção em você.

Conheço o seu corpo melhor do que ninguém. Desde que nasci, sou obrigado a bombear sangue sem parar para todas as partes do seu templo de carne. As células, os pulmões, os rins, o estômago, o fígado, o cérebro e toda a sua estrutura física precisam de mim.

Por que você não me trata melhor? Sou o mais sacrificado dos seus órgãos. Nem fazer greve por melhores condições de trabalho eu posso! Se eu parar, você desencarna.

Em matéria de sentimento, sou muito mais especializado do que você. Por isso, para que tenhamos uma melhor convivência

tenha mais equilíbrio
e
substitua a emoção grosseira pelo sentimento sutil!!!

Tenha dó desse pobre amigo que vos fala...."

03 maio 2007

as we travel... the universe...

Da raivosa paixão que resulta do ciúme, só os ciumentos podem falar adequadamente. E será que mesmo os que a padecem são capazes de explicá-la? Como a devem rotular: loucura furiosa? Inferno confuso? Verdugo do coração?