03 junho 2007

Reflexões_andre díspore

''...Em essência, depois de satisfazermos um sonho, a única coisa que teremos será um sonho a menos e, se isso nos parecer perda de tempo, então ao menos admitamos que nossos sonhos são sem sentido, e que não servem para nada além de povoar um mundo poético cuja única função é perpetuar um auto-engano vitalício. A saída lógica desse problema é simples: esperar que aconteça o que de fato acontece – em vez de passar a vida inteira resignado como uma vítima desse mundo real, material, cruel e injusto do qual seremos redimidos por um fator externo miraculoso que incorpora todos nossos desejos não-realizados como, por exemplo, a prometida segunda volta de Jesus, nos recompensando com bem-aventurança por termos vivido ansiosamente como imbecis sem rumo. Quem achar isso uma blasfêmia ridícula de um ateu imoral, então, para variar, abra sua Bíblia e leia o Evangelho com atenção, e verá que o reino dos céus não é apresentado como um lugar real para o qual ganhamos um bilhete de entrada depois de batermos as botas como bons cristãos, mas um estado de espírito, um modo de encarar a realidade. É claro que isso não implica que os valores cristãos sejam dignos de qualquer consideração séria – pois essa coisa chamada cristianismo já está mais vazia que a caixa de Pandora –, mas que a idéia de que seremos satisfeitos e recompensados depois da morte é tão infantil que ninguém consegue acreditar nela na prática – alguns podem dizer que acreditam, gritar que acreditam, se flagelar e jejuar para tentarem provar aos outros que acreditam; mas se acreditassem mesmo, do fundo de suas almas, quando sofressem um acidente, chamariam um padre, não a ambulância. O homem é só um pobre mamífero jogado nesse mundo absurdo sem entender bulhufas do que está acontecendo; um mamífero sem sentido que precisa de sentido; que, como qualquer outro, é cheio de necessidades, impulsos, sentimentos, desejos e expectativas que serão frustrados frequentemente; cheio de idéias, teorias e crenças nas quais muito se mostrará errado; cheio de angústias, dores e misérias que serão consistentemente reais...''

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