17 fevereiro 2008

Meus Pêsames

Meus Pêsames –
aos que dormem e aos que ficam acordados;
aos que andam e aos que ficam sentados;
aos que cantam e aos que ficam calados;
aos que se alegram e aos que ficam magoados.

Meus Pêsames –
aos que abraçam e aos que são abraçados;
aos vencedores e aos derrotados;
aos sóbrios e aos embreagados;
aos admiradores e aos admirados.

Meus Pêsames –
aos livres e aos enjaulados;
aos observadores e aos observados;
aos brincalhões e aos mal-humorados;
aos encantadores e aos encantados;

Meus Pêsames –
aos que adoram e aos que são adorados;
aos que pulam e aos que ficam parados;
aos empregadores e aos empregados;
aos que perdoam e aos que são perdoados.

Meus Pêsames –
aos que estão de olhos abertos e aos que continuam de olhos fechados;
aos satisfeitos e aos angustiados;
aos que dão o beijo e aos que são beijados;
aos pecadores e aos pecados - meus pêsames.


[Flávia Dellamura]

12 fevereiro 2008

Colecionador de lembranças


Um cantico poético pra entorpecer nossos tímpanos e aliviar nossas tensões
Valew aí meus amigos da cidade de blumenau, que sempre me proporcionam uma pá de som gótico e bandas independentes , inclusive outras galeras que se interessam, cuja sensibilidade e serenidade já tomou conta de nossas vidas.. por aí vai pra todos nós seres simples e descomplicados, porém enternecidos perante a acidez que é ser conduzido por fatalidades, pelos descasos, pelo complexo de ter que lidar. um aborto social não é motivo para que haja desafeto entre nós, precisamos uns dos outros. beijos para todos que ainda borbulham sentimentos =***
....

Por onde andei me procurei
e no cantos opostos pouco encontrei
tenho muito para contar
os poucos sorrizos que dei no caminho deixei
ah na bagajem lembranças
memórias que insistem embarcar
pelos novos caminhos tristonhos
desconhecidos, perdidos nos sonhos
em sonhos, em sonhuuus
abrem-se orquídeas negras
margaridas secas
flores murchas sem vida
violetas caídas...
um buquê de rosas enfraquecidas
flores de um cerrado sem vida
violetas caídas...
voltando agora há belezas da ída
e os espinhos ainda tem vida
só os espinhos tem vida ainda
voltando agora a belezas da ida

ó rosa, estais doente, do verme que se aventa invisivel à noite dos uivos da tormenta, encontrou teu leito, de prazer encarneci, em seu escuro amor secreto, a tua vida...pus fim.


Vultos - Cartas para ninguém - Colecionador de lembranças
mais sons: SoulSeek procure por>
(((COSMIC)))
[Kaxopa_dvs]
[seres podres humanos]

" Que se fodam as críticas e seus poderes, cada um faz a sua, e nós fazemos a nossa, não tememos a sua censura, nem a sua vista grossa"

Eu dispenso a eloquência de quem não se envolve
Já estou bem saturada
de tanto desgosto inerente a uma mente embaralhada
não é de meu caracter ignorar
todo mundo, eu sei, tem muita coisa pra falar
Mas essas razões apáticas nao fazem a menor diferença
Não venha querer infiltrar sua desarmonia na minha cabeça
Se não foi como querias
porque não soubeste absorver
procure seu caminho verdadeiro e boa sorte
Coisas do seu tipo você vai encontrar
Mas de uma coisa eu tenho certeza:
não é o seu caminho que eu vou trilhar!
realmente não preciso do seu julgar
O meu compromisso é comigo mesma.
Não sou o seu espelho
e pra ser sincera, se fosse, diria a você:
'cure suas feridas
e depois venha me ver!'
Se não quer minha amizade, minha companhia
Nada tenho a fazer , a não ser
não querer
compartilhar mais nada com você!
Meu corpo não é só carne e contornos
No meu coração ainda bate um sentimento
Amor, vida e contentamento
Originalidade
Mágoas transformadas em arte
Da poesia, da musica, do teatro
Desenvolvimento
Ainda prezo a linguagem
[Não é pra bonito mesmo
nem pra agradar
essa gente de fachada!]
Meus pezames, por essa tua idolatria camuflada!
Se bateu a dor de cotovelo, ou o ressentimento
algo está transformado dentro de você
Aqui ainda há muito pra se fazer,
perder meu tempo com as suas abobrinhas de tv
só me faz apodrecer!
Prejudique uma pedra, prejudique à você, mas deixe os outros de fora das suas desilusões caóticas, onde o seu cretinismo se alastra, e cresce o contorno hipócrita da sua visão/compreensão, se não existe mais firmeza em você,
não sou eu que tenho que pagar pelos seus fragmentos
[já me basta os meus, quando me atinjem esse bando de negativistas prisioneiros de sua própria farsa]
...


(gabí)

07 fevereiro 2008

"poesias nuas, poesias cruas, poesias minhas, poesias suas!"

Desejo pulsátil
Que pulveriza meu sangue
Faz desse pólem entupidor de veias
Enigma intrigante
Corrói os mais sólidos sentimentos
Maldita desordem do pensamento
Dossiê clássico fecundante
Incentiva à gostar sem ter antes
Beleza índole,
Diabólica
Sacia o vácuo perturbante
Provoca um sorrizo exuberante
Coração espumante, desencadeia
Pra depois esfaquear o corpo
Flamenjante
E transpor a ferida com areia...
Esperança suicida
Desejo que pulsa
Morte
Em vida




(gabí)

29 janeiro 2008

SONETO DE SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


(vinícius de morais)

17 dezembro 2007

||||°°°°°°°°|||||

Eu já vi tudo, eu vi as árvores,
Eu vi as folhas de salgueiro dançando na brisa
Eu vi um homem matar seu melhor amigo
E vidas que se acabaram antes de serem vividas
Eu vi o que eu era - eu sei o que eu serei
Eu vi tudo - não há nada mais para se ver

Você não viu elefantes, reis ou Peru!
Estou contente de dizer que tive um coisa melhor para fazer
O que sobre a China? Você viu a Grande Muralha?
Todas as muralhas são grandes, se o telhado não cair!

E o homem com quem você se casará?
A casa que você compartilhará?
Para ser franca, eu realmente não me importo...

Você nunca foi às Cataratas de Niagara?
Eu vi água, é água, isso é tudo...
A Torre Eiffel, o Empire State?
Meu pulso estava tão alto no meu primeiro encontro!
A mão de seu neto como ele brinca com seu cabelo?
Para ser franca, eu realmente não me importo...

Eu vi tudo, eu vi a escuridão
Eu vi o brilho em uma pequena faísca.
Eu vi o que eu escolhi e eu vi o que eu preciso,
E isso é o bastante, querer mais seria ganância.
Eu vi o que eu era e eu sei o que eu serei
Eu vi tudo - não há mais nada para se ver

Você viu tudo e tudo viu você
Você sempre pode revisar por conta própria na pequena tela
A luz e a escuridão, o grande e o pequeno
Há pouco se lembre de que - você não precisa de mais nada
Você viu o que você era e sabe o que você será
Você viu tudo - não há mais nada para se ver

[I've seen, bjork]

En un surto de loucura descobri como é dificil viver na lucidez


31 outubro 2007

°°°

"Cantos serenados
cruzam etéreos crepúsculos.
Nuvens douradas
pastam perfumes seculares
em seus altos caminhos.
Sonhos naufragados
atravessam espelhos, horizontes,
borbulham baixinho:
A poesia da rosa
é seu espinho."

(fabio rocha)

09 outubro 2007

19 setembro 2007

Ouro, prata, jóias...Terra, montões de esterco.
- Gozos, prazeres sensuais, satisfação dos apetites...Como uma besta, como um mulo, como um porco, como um galo, como um touro.
Honras, distinções, títulos...Balões de ar, inchaços de soberba, mentiras, nada.

13 setembro 2007

°°° ° ° °°

As coisas geralmente caem ao nosso redor
feito simples folhas secas ou pétalas de rosas.
Ou feito bombas.
A gente tem a opção de escolher
dentre uma lista de coisas não escolhidas.
Se um dia você descobriu algo
que te instiga a ir atrás
Escreva-o.
Marque num papel, antes que esqueça novamente
como tantas outras coisas
que ja despertaram seu sentimento amoroso
mas que foram esquecidas
por que as situações que caem
lhe trouxeram novas emoções.
E o fez esquecer



(gabí)

05 agosto 2007

VOLÚPIA IMORTAL

Cuidas que o genesíaco prazer,
Fome do átomo e eurítmico transporte
De todas as moléculas, aborte
Na hora em que a nossa carne apodrecer?!
Não! Essa luz radial, em que arde o Ser,
Para a perpetuação da Espécie forte,
Tragicamente, ainda depois da morte,
Dentro dos ossos, continua a arder!
Surdos destarte a apóstrofes e brados,
Os nossos esqueletos descarnados,
Em convulsivas contorções sensuais
Haurindo o gás sulfídrico das covas,
Com essa volúpia das ossadas novas
Hão de ainda se apertar cada vez mais!

O POETA DO HEDIONDO

Sofro aceleradíssimas pancadas
No coração. Ataca-me a existência
A mortificadora coalescência
Das desgraças humanas congregadas!

Em alucinatórias cavalgadas,
Eu sinto, então, sondando-me a consciência
A ultra-inquisitorial clarividência
De todas as neuronas acordadas!

Quanto me dói no cérebro esta sonda!
Ah Certamente eu sou a mais hedionda
Generalização do Desconforto...

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!


Augusto dos Anjos

03 agosto 2007

Vampiro [ Baudelaire ]

"Tu que, como uma punhalada
Invadiste meu coração triste,
Tu que, forte como manada
De demônios, louco surgiste,

Para no espírito humilhado
Encontrar luto e o ascendente
--Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à concorrente,

Como o seu jogo o jogador
como à garrafa o beberrão,
como os seus vermes a podridão,
--malditas seja, como for!

Implorei ao punhal veloz
Dar-me liberdade, um dia,
Disse após o veneno atroz
Que me amparaçe a covardia

Mas não! O veneno e o punhal
Disseram-me de ar zombeteiro:
Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro.

Ah! imbecil -- de teu retiro
Se te livrássemos um dia,
teu beijo ressucitaria
O cadáver do teu vampiro!"

31 julho 2007

Idealização da humanidade futura

Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
- Homens que a herança de ímpetos impuros
Tomara etnicamente irracionais!

Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!

Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...

E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!

A Idéia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cal de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!

Augusto dos Anjos

13 julho 2007

Monólogo de uma sombra

"Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A sáude das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios!

Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
- Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!

Na existência social, possuo uma arma
- O metafisicismo de Abidarma -
E trago, sem bramánicas tesouras,
Como um dorso de azémola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.

Como um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo á Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
E com certeza meu irmão mais velho!

Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como urna vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infurtúnio.

Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!

Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem...
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!

E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,
Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luz danada,
O espólio dos seus dedos peçonhentos.

Tal a finalidade dos estames!
Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,
Nas eterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!

Será calor, causa ubíqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,
Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!

E o que ele foi: clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,
- Engrenagem de vísceras vulgares -
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha
Dos apodrecimentos musculares!

A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.

E unia trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece...
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.

E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!...
Num suicídio graduado, consumir-se,
E após tantas vigílias, reduzir-se
À herança miserável de micróbios!

Estoutro agora é o sátiro peralta
Que o sensualismo sodomista exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo...
Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas
De uma animalidade sem castigo.

Brancas bacantes bêbedas o beijam.
Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E á noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar do meretrício,
O cuspo afrodisíaco das fêmeas.

No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,
Uivando, á noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,
Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.

Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,
Do seu zooplasma ofídico resulta...
E explode, igual á luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do aríete
E os arremessos de uma catapulta.

Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo
A destra descamada de um duende,
Que tateando nas tênebras, se estende
Dentro da noite má, para agarrá-lo!

Cresce-lhe a intracefálica tortura,
E de su'alma na cavema escura,
Fazendo ultra-epiléticos esforços,
Acorda, com os candieiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.

É o despertar de um povo subterrâneo!
E a fauna cavernícola do crânio
- Macbetbs da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sangüinárias
Que ele tem praticado na família.

As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam...
A asa negra das moscas o horroriza;
E autopsiando a amaríssima existência
Encontra um cancro assíduo na consciência
E três manchas de sangue na camisa!

Míngua-se o combustível da lanterna
E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de horroroso,
Que é talvez propriedade do carbono!

Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca...
Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua
A realidade de urna esfera opaca.

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!

Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,
Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.

Continua o martírio das criaturas:
- O homicídio nas vielas mais escuras,
- O ferido que a hostil gleba atra escarva,
- O último solilóquio dos suicidas -
E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larva!"

Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,
Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,
Julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre caveiras sujas,
A orquestra arrepiadora do sarcasmo!

Era a elegia panteísta do Universo,
Na podridão do sangue humano imerso,
Prostituído talvez, em suas bases...
Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta
Da incoerência infernal daquelas frases.

E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandiloquos massacres,
Há-de ferir-me as auditivas portas,
Até que minha efêmera cabeça
Reverta á quietação da treva espessa
E à palidez das fotosferas mortas!

Augusto dos Anjos

Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e á vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Augusto dos Anjos